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Momotaro o menino-pêssego

Conto de fadas japonês, recontado por Cely Naomi Uematsu

Momotaro é um conto de fadas japonês. Ele foi contado e recontado infinitas vezes ao longo dos séculos sem, contudo, perder a sua característica primordial: a de fortalecer internamente a criança que está prestes a enxergar o mundo com os seus próprios olhos, aquela que, apesar de saber da existência de monstros e dragões no mundo dos adultos, precisa ser encorajada a enfrentá-los e a superá-los.

Era uma vez, havia um casal que envelheceu sem ter filhos. Eles moravam próximos a uma grande montanha e viviam em plena harmonia, sempre dividindo as tarefas diárias com muita tranquilidade.
Certa manhã, como faziam habitualmente, o ancião foi buscar lenha na montanha, enquanto a anciã foi lavar a roupa no rio.
Ela esfregava as roupas, quando, ao levantar os olhos em direção ao céu, percebeu que algo flutuante descia pela correnteza das águas. Espantada, a anciã constatou que se tratava de um pêssego tão grande que, de certa forma, até poderia ser confundido com um pedacinho da Lua caído aqui na Terra.
A anciã entrou nas águas do rio e o chamou. Como se a escutasse, o pêssego seguiu em sua direção, parando suavemente ao seu lado. Com algum esforço, ela o retirou das águas e, passo a passo, voltou para casa. Quando o ancião retornou da montanha, ele ficou muito admirado quando viu o pêssego gigante sobre a mesa de jantar. Ao ouvir a explicação de como a anciã o havia encontrado, ele disse:
– O bom Deus nos mandou este presente!
A anciã concordou, tomou de uma faca e fez um pequeno corte no pêssego. Para a surpresa de ambos, ao fazê-lo, eles ouviram sair lá de dentro, o som do choro forte de uma criança. No instante seguinte, o pêssego abriu-se completamente, confirmando o que havia em seu interior: um bebezinho bonito, forte e muito saudável!
Ao vê-lo, os velhos ficaram radiantes de felicidade! Como o bebezinho era muito forte e havia nascido de dentro de pêssego, os anciãos deram-lhe o nome de Momotaro – o Menino Pêssego.
Momotaro cresceu muito. Espantosamente, ele atingiu o tamanho de um rapaz em pouquíssimo tempo. Momotaro era tão forte e tão trabalhador que, num instante, realizava todas as tarefas que antes os velhinhos executavam sozinhos: arava a terra, plantava o arroz, consertava o telhado, cortava a lenha, carregava a água do rio, e muito mais!
Sabendo disso, um dia, o chefe de uma aldeia próxima foi conversar com o Momotaro. Ele contou que, todos os anos, na época da colheita do arroz, os onis, seres maléficos que viviam numa ilha secreta, invadiam a aldeia e saqueavam tudo o que eles colhiam ao longo do ano.
– Nós temos que entregar toda a colheita do arroz. Depois, eles destroem as nossas casas, os pequenos roçados, as carroças, tudo, tudo. As crianças são as que mais sofrem com a fome e o medo.
– Amanhã, antes do raiar do sol, partirei para combater os onis maléficos – disse Momotaro.
Durante toda essa noite, o casal de velhos pilou o arroz até que ele ficasse macio e branco como a neve. Depois, eles fizeram quatro bolinhos de arroz e os embrulharam cuidadosamente. Ao despedirem-se, a anciã entregou-lhe o embrulho com os preciosos bolinhos de arroz. Ao fazê-lo, ela disse:
– Os bolinhos de arroz vão lhe dar força e coragem.
– Obrigado, avó. Obrigado, avô! – agradeceu Momotaro.
Assim, o jovem partiu, seguindo o seu destino.
Depois de caminhar por várias horas, Momotaro encontrou-se com um cachorro branco como a neve. O cachorro cantou para ele:

“Momotaro, você tem deliciosos bolinhos de arroz!
Por favor, você pode me presentear com um?”

Ao ouvir o canto do cachorro branco, Momotaro deu a ele o primeiro bolinho de arroz que os anciãos haviam feito. O cachorro comeu o bolinho de arroz, e disse ao Momotaro:
– Eu estou pronto. Eu irei com você!
Assim, os dois seguiram pela estrada atrás de um caminho que os levasse ao esconderijo dos onis.
Lá adiante, enquanto atravessavam uma floresta, eles encontraram um macaco, que cantou para o Momotaro:

“Momotaro, você tem deliciosos bolinhos de arroz!
Por favor, você pode me presentear com um?”

Momotaro entregou ao macaco o segundo bolinho de arroz que o ancião e a anciã haviam feito para ele. Após comer o bolinho, o macaco disse:
– Momotaro, eu estou pronto. A partir de agora, eu irei com vocês!
Assim, os três companheiros seguiram pela estrada à procura de um caminho que os levasse ao esconderijo dos onis.
Lá adiante, enquanto subiam uma montanha, os três viram um pássaro muito bonito, com uma plumagem colorida que voava na direção deles. O pássaro pousou numa árvore próxima e, em seguida, saltou sobre o punho de uma espada que estava oculta há muito, muito tempo. E ela cantou com sua voz maravilhosa:

“Momotaro, você tem deliciosos bolinhos de arroz!
Por favor, você pode me presentear com um?”

– É claro, pássaro! – respondeu Momotaro.
E entregou para o pássaro o terceiro bolinho de arroz que os velhinhos haviam feito para ele. O pássaro comeu o bolinho, ficou forte e muito contente e disse ao Momotaro:
– Momotaro, a partir de agora eu irei com vocês. Leve esta espada e me siga. Eu mostrarei o caminho!
O pássaro alçou vôo e os três amigos o seguiram.
Ele os levou até a beira do mar de onde podiam avistar uma ilha no meio do oceano. Na ilha era possível ver mesmo da praia, os contornos de um castelo grande e negro.
Na praia, Momotaro encontrou um barqueiro e disse a ele:
– Senhor barqueiro, eu preciso chegar até a ilha dos onis. Empreste-me o seu barco, por favor, pois estou indo para lá para combater os onis do mal.
O barqueiro ficou satisfeito e emprestou o seu barco para Momotaro e seus amigos. Assim, os três amigos subiram a bordo enquanto o pássaro alçou vôo à frente deles. Subitamente, o vento que até então estivera parado, inflou as velas do barco e soprou com força, levando-os a cruzar as águas do mar em segurança.
Ao chegarem à ilha dos onis, Momotaro guardou o barco e seguiu até o castelo. Ao aproximar-se, ele viu que uma altíssima muralha protegia toda a sua volta… Momotaro tentou galgar as suas paredes, mas, por mais que se esforçasse, na frente do castelo, atrás dele, em todas as direções, a muralha era muito alta, sendo impossível para ele transpô-las.
Então o macaco disse:
– Deixe estar, Momotarosan. Eu e o pássaro encontraremos uma solução.
Auxiliado pelo pássaro, o macaco galgou as paredes da muralha e entrou no castelo. Passado um tempo, e novamente auxiliado pelo pássaro, voltou para junto de Momotaro levando-lhe as chaves dos portões da muralha.
Momotaro comeu o quarto e último bolinho de arroz que os anciãos haviam feito para ele. Ele ficou forte, muito forte! Usando a chave certa, abriu os portões, e entrou no castelo dos onis.
Lá dentro, os seres do mal já o aguardavam. O líder dos onis disse-lhe com um sorriso zombeteiro:
– Ora, ora, mas que petulância, Momotaro! Vou ter que ensiná-lo a ser menos atrevido!
Momotaro nada disse, mas desembainhou a sua espada em resposta.
O líder dos onis riu-se, chamou os outros onis, tão grandes e horrendos quanto ele e partiu para o ataque.
Protegidos pelos preciosos bolinhos de arroz, Momotaro e os três amigos enfrentaram os onis sem vacilar. O cachorro mordeu as pernas de um enorme oni. O macaco mordeu e arranhou o rosto de outro. O pássaro voou para um enorme ser do mal bicando e furando os seus olhos.
E Momotaro, forte e resoluto, acertou o líder dos onis com os golpes precisos de sua espada. Por fim, ele conseguiu subjugar os seres do mal à sua vontade. Prostrados e humilhados, os onis curvaram-se diante de Momotaro rogando-lhe perdão.
Momotaro disse:
– Vocês causaram muito medo e sofrimento a toda a gente! Arrependem-se disso?
– Sim! – respondeu o líder dos onis.
– Então, prometam nunca mais sair da ilha para perturbar ninguém! – disse Momotaro.
– Prometemos! – respondeu depressa o oni chefe.
E como prova de sua palavra e de seu arrependimento, os onis entregaram grande quantidade de tesouros ao Momotaro.
Ajudado por seus companheiros, Momotaro carregou o tesouro em uma carroça e voltou para o barco. Com ele, cruzaram as águas do mar, novamente auxiliados pelo vento divino.
Quando chegaram em terra firme, Momotaro devolveu o barco ao barqueiro, presenteou-o com uma parte do tesouro que recebera dos onis e seguiu o seu caminho de volta para casa.
Ao chegar na aldeia, os aldeões o receberam com muita alegria. Então, auxiliado pelos bons velhinhos, Momotaro compartilhou o seu tesouro com os pobres habitantes da aldeia sem saber que, ao fazê-lo, era observado secretamente pelo governador da província onde vivia. Então, o governador surgiu por detrás das árvores onde se ocultara e disse:
– Momotarosan! Você é um rapaz bom, corajoso, trabalhador e muito generoso também. Por isso, se for da vontade de ambos, vou dar-lhe a mão de minha filha em casamento.
E porque, ao olharem-se, apaixonaram-se verdadeiramente, no mês seguinte, Momotaro casou-se com a filha do governador numa festa muito bonita onde todos comemoraram com muita alegria.

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